sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Nostalgia

Melancolia profunda causada pelo afastamento da terra natal; saudade de algo, de um estado, de uma forma de existência... 

Por Hilda Lucas.

Não sou filósofa, nem sequer estudiosa, sou só curiosa mas sou platônica e portanto sou nostálgica. Tenho saudade de Deus. 

Existe uma idéia apaziguadora, talvez romântica, talvez mística que me explica anseios, intuições e empirismos: nos recordamos de Deus, por isso,  naturalmente, nos voltamos para o Belo e Bem, num impulso atávico. Queremos voltar para de onde saímos.  Para Platão, a alma imortal em sua vida pré terrena contemplou Deus, portanto ficou nela uma reminiscência, um conhecimento daquilo que existe desde sempre, uma afinidade originária. 


Lembramos de Deus, sem saber, sem conhecer. Lembramos de Deus porque de alguma forma estamos impregnados dele. Não quero dar uma conotação religiosa pois o Deus do qual lembramos não mora em templos nem é filiado a religiões. Lembramos de Deus sem rezar, sem intermediários, sem revelações.

Somos essencialmente bons. Queremos a verdade. Buscamos a harmonia. Amamos. Procuramos a felicidade. Sonhamos com a imortalidade. Vivemos em busca de um sentido maior para nossa existência talvez porque no fundo a gente se lembre de “uma estado ou forma de existência que deixamos de ter”. Talvez porque um dia vislumbramos Deus e conhecemos a plenitude é que nos inclinamos na direção do Bem. É como ter um fio condutor invisível que seguimos por intuição. É como ter uma canção cósmica que nos guia e identifica; uma memória fluida e atemporal impressa na pele da alma que nos lembra o que não sabemos que sabemos.

Pode ser um pensamento infantil, que não resista às mais básicas considerações da ciência e da teologia.  Não me importa.

Gosto de pensar que tem  Deus no DNA da minha alma. Que de todas as sensações, vivências e impressões a mais importante é a lembrança inata e indelével de tempos anteriores ao próprio Tempo.

Gosto de pensar que aqueles fugidios momentos de paz e felicidade absolutas que nos surpreendem gratuitamente, assim, do nada, acontecem porque por alguma fresta da percepção e da memória, nos lembramos do que sentimos quando contemplamos Deus. Gosto da idéia de que podemos acionar ou acessar um conhecimento que temos desde sempre, como se soubéssemos, mesmo sem saber, o que procuramos. Gosto de confiar no amor como método.

Gosto de acreditar que quando me sinto inundada de serenidade e harmonia, estou reavivando uma nostalgia de plenitude. Nascemos com sede e fome desse contentamento. Uma espécie de saudade de casa.

A Paz nos é familiar, desde sempre! (Nós já a experimentamos...num tempo embrionário.)

sábado, 19 de setembro de 2009

Momentos Difíceis (Existe um Fim Definitivo para Tudo?).


 Não é fácil compreender aquilo que nossos pensamentos se recusam a ver. Como podemos enxergar uma verdade se estamos presos a uma mentira? Imagine um mundo perfeito, onde nada mudasse, onde nada se renovasse, onde o nascido não pudesse se tornar recriado?
Teria razão para existir um mundo assim? Se nada mudasse, se as coisas criadas não se tornassem renovadas, por que deveriam existir? Uma coisa terminada, perfeita, acabada por estar concluída, precisaria existir?

Por que existimos não sabemos, mas não podemos negar que a renovação é a única certeza que temos diante de nós. Não podemos evitar, a renovação é a lei das coisas creadas, é a força motriz do universo. Ele cria e ao contrário do que pensamos, não recria. Ele apenas dá continuidade aquilo que já criou. Não teria sentido algum recriar e recriar, partir para sempre do ponto zero, para o próprio ponto zero. Isso seria a auto-anulação, o fim de si mesmo.

O que se cria não pode ser descriado, mas deverá, e o será, para sempre modificado, renovado, aperfeiçoado. Não nascemos porque já existimos antes, mas porque já fomos criados. Aquilo que nasce não foi criado, mas apenas continuado em seu eterno movimento de transformação. Aperfeiçoar não quer dizer finalizar, chegar a um ponto final, mas antes disso, a infinita caminhada do creado, para o mais de si mesmo.
 sofrimento humano é tão verdadeiro quanto o é o existir de todas as coisas.

Imagine uma planta incapaz de sair de suas raízes, incapaz de buscar água profunda nos momentos de crise, incapaz de sintetizar os nutrientes da terra que a mantém viva. Seria essa planta coisa perfeita? Assim também não acontece conosco? Como podemos nos renovar se não nos movemos em nenhuma direção, se permanecemos estáticos, fixos, não seria o mesmo que estarmos mortos?

Uma criança ao desenvolver-se não deixará de ser criança para se tornar adulto? Não nasce um adulto e morre uma criança? É possível que um exista sem a morte do outro? Como podemos nos renovar, renascer, se não nos permitimos adentrar em um mundo novo, que até pode ser desconhecido para nós, assim como o é para o adolescente que se torna adulto, para a criança que se torna adolescente.

Não se enganem meus amigos, o existir é coisa infinita, coisa essa que pode ser mal compreendida pela nossa estreita e previsível mente, mas que se torna real quando estamos dispostos a examinar o próprio viver, dia após dia, onde aquilo que fica para trás servirá de base para nossos futuros alicerces.

Muita Luz , equilíbrio e força para todos.
Autor anônimo.

domingo, 13 de setembro de 2009

O Avarento

Um rico avarento encontrou um pote cheio de moedas de ouro, enterrado em sua propriedade. Com receio de que alguém o visse, cobriu tudo com galhos de mato e no dia seguinte, disposto a ficar de olho no seu achado, levou sua mulher ao lugar e lhe disse: “Acho que vou mandar construir uma pequena cabana nesse local, para onde nos mudaremos, pois considero essa área mais fresca que a da casa, e assim poderemos passar tardes mais agradáveis; o que você acha da idéia?”. Ela claro, concordou, pois já se cansara da pequena e precária casa onde viviam.

Ele claro, não arredou o pé durante toda obra, e sua maior recomendação fora a de preservar o espaço, onde estava o arbusto que cobria seu tesouro. Mandou inclusive construir um pequeno muro em volta. “Adoro esse tipo de arbusto”, justificava ele. E como não se desse por satisfeito, sempre desconfiado de tudo e de todos, durante a noite costumava se levantar várias vezes, e para não chamar a atenção de sua mulher, resolveu fingir que era sonâmbulo. E sua mulher dizia: “É perigoso caminhar dormindo, acho que você deveria ir no doutor”. Ele claro, inventava mil coisas e sempre dava um jeito de não ir.

Ocorre, que tomado por uma longa enfermidade, causada pela friagem da noite, logo viu toda sua fortuna sumir. Então ele se vê verdadeiramente pobre como sempre fizera questão de parecer. Mas, recuperado da enfermidade, e tranqüilo por saber que ainda dispunha do pote de ouro escondido, disse à sua mulher: “Dinheiro é assim mesmo, a gente ganha, a gente perde”. A mulher quase não acreditava naquilo que ouvia, e atribuiu o fato, aos efeitos colaterais dos remédios que tomara, e da longa enfermidade. Como era possível que um homem sovina daqueles, fosse capaz de se transformar assim; só podia ser efeito da medicação. Respirou aliviada, e pensou: “Logo o efeito dos remédios passa, e tudo volta a ser como era antes”.

Mas eis que sua mulher sela de vez suas pretensões ao lhe confidenciar: “Você sabe que sua enfermidade foi longa e cara para nós. Ocorre que num dado momento faltou dinheiro para dar prosseguimento. Por isso tivemos que procurar outro médico. Este teve de começar do zero e finalmente gastamos até o que não tínhamos. Disse que se tivéssemos terminado o tratamento com o primeiro, a cura teria sido mais rápida. Tive então que vender nossas terras para um arrendatário que nos proibiu de tocar em qualquer coisa que nela exista. Para isso até colocou aqui um empregado apenas para nos vigiar, dia e noite, até o dia que deixarmos o local”.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Humildade?

Um homem muito pobre, que passava horas a trabalhar na lavoura, de um pequeno terreno que possuía, vivia a lamentar-se: “Tudo que aqui nasce, é apenas suficiente para o sustento de minha família. Se pelo menos sobrasse um pouco do que produzo, poderia levar ao mercado e vender...”
E todos os dias, lá estava ele no seu pequeno sítio, cuidando da lavoura e a lamentar-se:

“Bem que podia sobrar só um pouquinho da colheita; sei que conseguiria vender no mercado, e aos poucos, poderia dar melhor vida aos meus filhos; vida melhor que a de agricultor que é o que os espera...”

Comovidos com sua penúria, os Deuses resolveram intervir e fizeram com que suas terras lhe ofertassem uma milagrosa safra. Ele contente, exclamou:

“Que grande safra, agora posso vender o excedente no mercado! Imagine se tivesse suplicado aos Deuses; certamente a safra seria ainda maior.”

O Ganancioso

Eis um conto de ensinamento que julgo de grande valor para todos.
Como o recebi estou publicando.


Um rico fazendeiro possuía uma grande propriedade muito fértil, e ao seu lado havia um vizinho muito pobre com um pequeno sítio, de terras muito áridas.

Um grande lago de águas límpidas cobria grande parte das terras do rico e o vizinho pobre ao lhe solicitar um pequeno córrego para irrigar sua insignificante propriedade, lhe respondeu o rico:

“Se faço isso, logo ficarei sem água, pois um pede um pouco, depois quer mais, e assim, nunca mais acaba a necessidade que é sempre crescente.”

De pouco adiantaram os argumentos do pobre de que sua propriedade era pequena e de que a quantidade dágua muito pouca, e sem chances de aumentar de consumo como ele imaginava.

Tempos depois, na propriedade do pobre surgiu um pequeno veio dágua que começou a criar um pequeno açude em seu terreno. Ao ver aquilo, o rico chamou seus engenheiros e lhes disse:

“Acho que há um vazamento do meu lago para as terras do vizinho. Deve ser em baixo da terra, pois não vejo nada em cima. Quero que construam em volta do meu lago uma grossa e firme parede de concreto, de modo que esse vazamento seja fechado...”.

E fez-se isso. Mas com o passar do tempo, o açude do pobre enchia mais e mais e logo o lago do rico se esvaziou. Então ele descobriu que o veio de água que enchia seu lago, ficava nas terras do vizinho pobre e que ao fechar o caminho deixara de receber a água.

Aprendendo a Pensar

Observe uma criança recém nascida, ela ainda não sabe falar, mal consegue enxergar além do seu próprio nariz, e é completamente dependente dos seus pais ou responsáveis. No interior do seu cérebro existem apenas as informações necessárias para que seja capaz de exercer seu instinto, é por isso que ela sabe chorar, sabe expressar um desconforto físico. Para quem não sabe, um bebê não enxerga direito, seu sistema visual ainda carece de amadurecimento, e nessa fase, ele vê tudo embaçado, difuso, sem uma forma definida, até porque seu centro cerebral, o gerenciador de informações recebidas, ainda está se organizando.

Quem ou o que gravou em seu cérebro as informações instintivas, a chamada memória instintiva, isso não é assunto para ser discutido agora, mas graças a isso, ela sabe fazer “algumas” coisas, mesmo sem ter recebido instrução prévia, de nenhum adulto. Os demais animais, os irracionais, também funcionam desse mesmo modo.

Seus pais ou responsáveis, que já possuem uma razoável experiência de vida, que podem ser jovens ou adultos, já convivem em um mundo bem conhecido deles, com suas regras, suas anomalias, suas tradições culturais, suas crenças, suas ideologias políticas e religiosas, e assim por diante. O modo como estes “responsáveis” vão tratar essa criança, logicamente, vai depender do conhecimento que possuam. Se apenas conhecem o seu modo de cuidar das coisas, irão se valer dessa experiência, desse modo de agir e interagir, para cuidar do seu bebê.

As cantigas de ninar que cantarão para fazê-lo dormir, ou acalmá-lo, serão aquelas que já conhecem, que sabem cantar, mal ou bem, que também escutaram quando eles próprios eram crianças. Até ai não há novidade alguma, afinal de contas, todos agem da mesma forma, todos repetem aquilo que já aprenderam antes, essa é a lógica da coisa.

Mas, aquela criança, ainda não repetiu nada, não tem experiência de vida, por isso não possui memórias, que são as lembranças das coisas vivenciadas, experimentadas. Por isso, ainda não deseja, não sente raiva ou empatia, não é medrosa, nem guarda rancor das pessoas, ou planeja um futuro, qualquer que seja, para si mesmo.

Nessa etapa, as crianças, estão completamente vazias, por isso não pensam, mas já possuem o potencial para serem preenchidas, pelo pensamento dos outros. Conhecer a utilidade de uma coisa para depois decidir o que fazer com ela, isso é pensar, deduzir, e isso requer experimentação anterior, vivência, memorização, e como elas ainda não passaram por nenhuma dessas fases, não sabem para que as coisas servem, portanto, não pensam.

Mas a capacidade de pensar, isso elas já possuem. Capacidade de pensar é bem diferente de saber pensar. A capacidade de pensar é involuntária, é inata, não depende de memórias, nem de lembranças. O instinto é assim, não carece de experimentação anterior, mas existe. Saber pensar é coisa calculada, que requer memórias, lembranças de como as coisas funcionam, para que servem. O pensamento é um ordenamento das memórias, de modo que arrumadas de forma lógica, façam algum sentido, signifiquem alguma coisa, capaz de se expressar através de uma ação, do veículo, quer dizer, do indivíduo.

Assim, a capacidade de pensar, todo ser humano possui como potencial, e isso não depende de suas vontades, ou de aprendizado algum. Já para se construir um pensamento, esse mesmo ser humano, precisa de informações, precisa de experiência, necessita da lembrança das suas memórias. As memórias virão, serão formadas quando ele tiver experimentando as coisas do mundo. Quando estiver com todo seu sistema sensorial funcionando perfeitamente, pronto para receber, perceber e interpretar de forma clara, às impressões que lhe chegam do mundo exterior.

Interpretar nessa primeira fase, se resume a avaliar de forma clara, quando um objeto ou situação, embora não possam ser racionalmente compreendidos, podem ser capturados pelos seus órgãos sensoriais, isto é, ser percebido. Ela, a criança, ainda não possui intelecto, que são as memórias de sua experiência de vida, pois ela está no inicio de sua jornada, vazia, aguardando por tudo isso. Nessa etapa da vida, ela aprenderá muito com aqueles que estão do seu lado.

Desse modo, seu cérebro, embora ainda vazio de informações, de memórias, das regras operacionais do mundo, já possui a capacidade involuntária de memorizar qualquer coisa capaz de ser detectada pelos seus cinco sentidos. Receberá assim as primeiras informações, vindas de outro adulto, que já sabe das coisas, que já vive estas coisas, que já faz parte de um mundo existente, que repete suas regras morais, materiais e espirituais, desde incontáveis gerações.

E como os adultos, elas também serão ensinadas a repetir. Se já existe em cada ser humano um potencial inato, para através da repetição, apreender as coisas que lhe sejam necessárias à sobrevida na terra, os adultos, que já são mestres no repetir de velhas regras, mitos e tradições, tenderão a repassar todo processo pelo qual os mesmos já passaram, às suas crianças.

E todas as regras de funcionamento de qualquer coisa existente em nosso mundo, serão simplesmente copiadas, de uma mente para outra, do mesmo modo que se duplica um livro já publicado. E do mesmo modo que se revisa um livro, também, eventualmente, alguma ressalva é acrescentada a tudo que já existe, e basicamente é a isso que chamamos de pensar. Assim, para nós, repetir velhos procedimentos técnicos ou sentimentais, significa pensar.

Se observarmos uma criança a brincar, entretida com um brinquedo do qual ela realmente gosta, parecerá a mesma separada do resto do mundo. Nesse processo de atenção total, ela não segue nenhuma regra estabelecida, ela cria suas próprias alegorias, de forma livre, ignorando mesmo o conhecimento rígido que possua sobre outras brincadeiras que lhe são familiares. Poderá até repetir gestos, rotinas de atividades que já conhece, mas a exemplo da capacidade de andar, onde o pensamento não interfere, assim também nesse momento sucederá.

Longe da rigidez das regras pré-estabelecidas, onde o pensamento não está exigindo, comparando, seguindo regras que não podem ser quebradas, ela fica a vontade para criar, sem medo dos censores, sem medo de castigos, sem a obrigação de agradar para receber recompensas. Nesse estado de ignorar os próprios pensamentos, ela se torna inteligente. Não é dependente nem prisioneiro de ninguém, de nenhuma lei, não precisa seguir roteiros conhecidos, está disposta a criar seu próprio caminho.

Cumpre ao educador compreender o que significa este não pensar, e apenas assim, terá dado o primeiro passo rumo ao que de fato significa pensar. Ao perceber que não pensa, estará pela primeira vez, pensando. Não se trata de jogo de palavras, mas a simples constatação de que aquilo que ele chama de pensamento, de fato não é pensamento, apenas discordância ou concordância, já demonstra inteligência.

Autores:
Ester de Cartago/ Jon Talber
Email: estercartago@yahoo.com.br

sábado, 29 de agosto de 2009

A Mulher ( Parte 1)

Reflexões Sobre a Minha Vida
(Um relato real)

Como pessoa, quem sou afinal de contas? Tenho nome, tenho profissão, tenho família, tenho ideais, tenho meus medos. Sei que existo porque me percebo diante do espelho, sei que existo porque tenho pensamentos, escuto meus pensamentos, tenho minhas próprias opiniões, ou não serão minhas? Por que preciso da aprovação de alguém até para expressar satisfação com alguma coisa? Será que somos todos assim, ou apenas eu? Hoje me percebo insegura, claramente indecisa quando preciso decidir algo, logo eu que sempre detestei pessoas indecisas, que sempre condenei a morosidade de algumas diante de uma escolha.

Vejo como percebo o mundo hoje. Isso é muito estranho, pois até parece que ele só passou a existir a partir desse momento. Não lembro de percebê-lo quando era mais jovem, quando, nem lembro quais eram minhas preocupações. Será justo condenar agora os jovens que passam o dia sem fazer nada, será que eu não fazia o mesmo? Se fizesse algo útil, proveitoso, certamente que lembraria, mas como não lembro, é quase certo que fazia o mesmo que os de hoje fazem. Lembro das minhas amigas, mas não lembro bem sobre o que conversávamos. Que mundo era o meu, quais minhas aspirações, meus receios, minha idéia de futuro? Entrar na faculdade, namorar e casar, ter filhos? Não consigo lembrar, mas certamente que era tudo isso, pois fiz faculdade, namorei, casei e tive filhos.

Era o que eu queria fazer? Hoje percebo que ainda não tenho a resposta para tal questão, pelo menos não uma resposta enfática, definitiva, pois sequer sei o que é ter vontade própria. O que é o querer, é uma vontade minha, é um desejo realmente meu, ou apenas a sugestão de outros que diligentemente aceito sem perceber? São minhas vontades que transformo em ação, faço realmente aquilo que quero sem depender de opiniões, ou faço apenas aquilo que não contraria a vontade dos outros? Por que devo me preocupar com a opinião de outros se a vontade deveria ser minha, não é minha vida? Por que devo seguir contra meu querer apenas para agradar a outras pessoas? Afinal a vida é minha ou dos outros?

Por que não posso fazer o que quiser, se não estou prejudicando ninguém? Se não estou com vontade de ir à escola, por que não me respeitam, por que sou obrigada a ir mesmo contra minha vontade? Por que tenho que ter filhos depois de casar? A vida a dois não seria suficiente para preencher os ideais de um casal? Por que casei afinal de contas, por que precisamos de um contrato para formalizar uma simples união entre um homem e uma mulher? É um sentimento que está em jogo ou um negócio como outro qualquer? Por que o contrato? Será que é para garantir que a união perdure mesmo que com o tempo a relação se desgaste? Por causa do contrato devo me contentar em ser infeliz ao lado de quem não gosto, apenas para cumprir um acordo comercial? E meus sentimentos, e meu querer, e minha vida, minha felicidade, nada disso é levado em conta? Já que se trata de um acordo comercial, percebo que os sentimentos de nada valem, valessem alguma coisa, o respeito mútuo e a consideração deveria bastar.

Contrato para regulamentar sentimentos, que coisa terrível, mas se é assim, como nada posso fazer, porque não incluir no mesmo os sentimentos, afinal não foi o sentimento que supostamente nos uniu? Será que foi sentimento, ou apenas um tipo de interesse vulgar? Sim porque somos movidos a interesses pessoais. Por que casamos, para cumprir um papel social, para procriar, para termos alguém fixo com quem podemos saciar nossos desejos mais íntimos? Por que uma mulher tem que cuidar dos filhos e da casa, enquanto o marido se ausenta e passa o dia no trabalho longe de tudo? Por que não podemos nos cansar e negar sexo quando o mesmo o exige? Por que cumprir as obrigações matrimoniais de marido e mulher se resume a dar sexo quando o homem nos procura? Por que não podemos ter nossas vontades e disposições assim como eles, o que está errado, somos nós? Por que aceitamos tão indigno papel sem contestar?

Por que nós mulheres temos que ser virgens antes do casamento, enquanto que entre os homens e a sociedade, a experiência sexual prévia é bem vista, sendo mesmo um sinal de masculinidade, de virilidade, de virtude? Por que os homens se vangloriam de ser o primeiro, exibindo a virgindade da mulher conquistada como um troféu, se para eles mesmos a própria virgindade é sinal de desonra? Por que para os homens ter outras mulheres é normal, é tolerável, e por que devemos perdoa-los, mesmo sabendo que se fosse o inverso eles teriam até o direito legal, garantido por lei, de nos matar? Que vida infame é esta onde os homens podem qualquer coisa, e as mulheres podem apenas ser escravas e objetos de prazer deles? Por que as religiões não se posicionam abertamente a nosso respeito, ao invés de hipocritamente se omitirem, não será porque são dirigidas por homens?

Por que uma mulher que traí tem má fama, enquanto que um homem que traí é agraciado pela sociedade como um verdadeiro macho, uma garanhão, um puro latino, um brasileiro legítimo, e será para sempre louvado e mesmo desejado por outras mulheres? O que é a traição? Quem trai o que? Não será traição maior violar meus sentimentos para cumprir um contrato absurdo onde os sentimentos pouca importância tem, e apenas se prestam a formalizar aparências, a oficializar um circo social que agrada a todos que prezam pela hipocrisia? Por que a igreja não diz na hora da consagração, até que a vontade dos dois os mantenham unidos, ao invés de proferir uma sentença de morte como a prerrogativa final de uma união?

Por que a mulher precisa ter filhos para agradar a sociedade, e ao marido, mesmo sabendo que muitas vezes isso arruinará sua carreira e aspirações profissionais? Por que as mulheres podem e são motivadas a desistirem de tudo em prol da família, dos filhos, do marido, e aos homens nada disso é exigido? Por que a mulher deve largar emprego, amigos, família e tudo mais, se o marido vai trabalhar em outra cidade, quando sabemos que jamais ele faria tal coisa, fosse a situação inversa? Homens podem aliviar o estresse do trabalho com os amigos, e por que a mulher que trabalha muito mais cuidando da casa e dos filhos, não pode? Por que devemos nos submeter ao crivo da sociedade, dos amigos da família, obedecendo aos seus padrões, suas vontades apenas para sermos visto como boazinhas, como virtuosas, o que esperamos ganhar com isso?

De quem é a vida afinal, nossa ou dos outros? Hoje percebo que ela não me pertence, pois a opinião alheia é a única coisa capaz de direcionar todos os meus atos. Percebo o quanto me tornei escrava da minha hipocrisia, das aparências que preciso a todo custo manter para parecer virtuosa, ser bem respeitada, para que todos me vejam como uma boa moça. Devo mais satisfação aos outros que a mim mesmo. Mas por que faço isso, por que violentamente nego minhas vontades, meus sentimentos, apenas para manter uma falsa imagem de virtude diante de um mundo que não respeita a vida, um mundo brutal, maligno que não respeita nada nem ninguém? Por que preciso falsamente apoiar tanta maldade e hipocrisia, mesmo sabendo de todos os males que causam, sem respeito algum, a mim e aos outros?